Onde vive a memória

Os primeiros cachos de Jade estão brotando, da minha janela já consigo avistar esse presente.

Há mais de vinte anos eu já visitava esta que vem a ser a cidade que escolhemos para viver pois aqui moravam os avós do Jaime.

Na chácara em plena cidade éramos acolhidos com o café do Seu Gumercindo e o doce de abóbora da Dona Luzia. Sentávamos nos bancos de madeira de demolição na varanda e a tarde passava sem pressa, ao som das histórias dos dois.

Nos meses de inverno a varanda ficava envolta por essa folhagem que protegia e inebriava com sua beleza.

A varanda com móveis feitos pelo “biso” foi palco dos primeiros passos dos meus filhos, seus primeiros rabiscos, suas tarefas da escola e intermináveis brincadeiras com primos, tios e avós.

Foi lá também que depois de um derrame Seu Gumercindo passava a maior parte do tempo, com sua fala já atrapalhada pelo infortúnio mas sua disposição pela vida intacta. Depois do trabalho eu passava lá, tomava um café e ouvia as suas histórias que até hoje trago na memória.

Seu Gumercindo nos deixou, Dona Luzia aguentou com a força de quem aos 16 anos se casou com um moço que mal conhecia e pariu onze filhos, um sozinha enquanto o marido trazia a parteira. Mas um dia ela também partiu, a casa foi trancada e não sei se a Jade resistiu.

Quando encontrei a muda dessa flor plantei cheia de esperança. Queria a lembrança e o aconchego de tanto carinho no meu jardim. E agora, quando começa o inverno eu sento no jardim e vejo no turquesa vivo Dona Luzia mexendo o tacho de cobre no fogão de lenha, Seu Gumercindo com seu chapéu de palha trazendo frutas do pomar e avisando que a mesa tá posta e “pra comer chama uma vez só!”

Um texto antigo, estava no meu Instagram e aos poucos vou guardando aqui pois nunca se sabe se um dia a rede cai.

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